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Porque temos dor crónica?

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Dor Crónica tem cura, exceto se o cérebro já estiver "sensibilizado".

Imagine um alarme de casa tão sensível que dispara com o vento.
A princípio, ele só tocava quando havia mesmo perigo. Mas, com o tempo, começou a reagir a estímulos cada vez mais pequenos: um carro a passar, um gato a saltar a vedação, a sombra de uma árvore.

A dor crónica comporta-se exatamente assim.

A lesão inicial pode até já estar resolvida — o tecido sarou, o corpo fez o que tinha a fazer — mas o sistema nervoso mantém o alarme ligado, como se existisse ameaça constante. E isto transforma a experiência de dor de algo útil e protetor para algo persistente, desgastante e muitas vezes incompreendido. Passa de sintoma útil e protetor a fenómeno desajustado e sem benefício para a pessoa.

Neste artigo, vamos explicar de forma clara:

  • os tipos de dor crónica (recorrente, contínua e contínua com flare-ups)

  • os mecanismos neurofisiológicos que lhe dão origem

  • o que significa, afinal, sensibilização central

  • e porque, quando ela está presente, o processo não é “curar a dor”, mas sim recuperar controlo e modular a intensidade.

E, claro, com orientações práticas que qualquer pessoa pode começar a aplicar hoje.


1. Dor crónica é uma doença em que há uma mudança no sistema nervoso

Na literatura científica (incluindo revisões recentes da PAIN), a dor crónica é definida como dor que persiste mais de 3 meses — não porque gostamos de números redondos, mas porque é o tempo em que o sistema nervoso pode começar a mudar a forma como interpreta e amplifica sinais.

Existem 3 grandes padrões clínicos de dor crónica:


1.1 Dor crónica recorrente

É aquela que vai e volta, muitas vezes associada a fatores específicos: stress, sono fraco, excesso de carga, esforço repetido, postura prolongada, períodos menstruais, etc.

Exemplos típicos: lombalgias episódicas, enxaquecas, cervicalgias.

Dor crónica não significa ter sempre dor, e no caso da dor recorrente, pode passar dias, semanas e até meses sem dor. Até que uma nova crise aparece.


1.2 Dor crónica contínua

Aqui, a dor está sempre presente, mas a intensidade é relativamente aceitável (4 em 10 numa escala de 0 a 10).

É comum em condições como osteoartrose, dor pós-cirúrgica persistente, dor neuropática.

É o segundo pior cenário quando falamos de dor crónica.


1.3 Dor crónica contínua com flare-ups

É um dos padrões mais frustrantes e o pior de entre os três.

A pessoa tem dor constante, mas episodicamente surge um agravamento forte — um “pico”, uma crise intensa — que pode durar horas ou dias.

O flare-up é muitas vezes despoletado por fatores como:

  • stress emocional

  • mudanças no sono

  • esforço inesperado

  • doença / infeção

  • medo do movimento

  • períodos de maior inatividade

E é exatamente neste padrão que o desafio é maior. Não é provável passar de uma dor crónica contínua mais flare ups para uma dor recorrente, ou mesmo para a cura. É um processo que leva tempo, principalmente porque já é provável, nestes casos, haver sensibilização central. Já lá vamos.


2. Os mecanismos neurofisiológicos: explicados de forma simples

A dor não é produzida pelos tecidos.
É produzida pelo sistema nervoso.

Os tecidos enviam sinais (nociceção).
O sistema nervoso decide se isso é perigoso ou não (dor).

Aqui vão os três mecanismos principais:


2.1 Dor nociceptiva

É a dor “normal”, quando há inflamação ou dano real no tecido.

Exemplos: entorse do tornozelo, lesão muscular, fratura, tendinite.

O sistema nervoso está a funcionar como deve.
Os tecidos mandam sinais → o cérebro interpreta como dor → protege.


2.2 Dor neuropática

É causada por lesão ou disfunção do nervo.

Exemplos: ciática, neuropatia diabética, síndrome do túnel cárpico.

A dor é muitas vezes descrita como:
“choques”, “ardor”, “corrente”, “queimação”.


2.3 Dor nociplástica

Aqui o sistema nervoso está hiper-reativo.

É a tal situação do alarme demasiado sensível.
Os tecidos podem estar bem, mas o cérebro interpreta estímulos normais como ameaçadores.

É comum em:

  • fibromialgia

  • dor lombar crónica

  • dor persistente pós-cirúrgica

  • enxaquecas

  • síndrome de dor regional complexa

  • dor pélvica crónica

Aqui, o próprio cérebro está sensível à dor – sensibilização central. Neste mecanismo de dor há sempre sensibilização central. E é aqui que entra uma verdade essencial, que muitas vezes falta na comunicação clínica.


3. Quando existe sensibilização central, não falamos em “curar” a dor — falamos em controlar a intensidade da dor

Isto não é derrotista.
É libertador.

Porque muda a pergunta:

❌ “Como tiro esta dor completamente do corpo?”
✔️ “Como treino o meu sistema nervoso para ficar menos sensível e recuperar controlo sobre a intensidade?”

O foco deixa de ser eliminar um sinal, e passa a ser melhorar a regulação.

Tal como a artrite não se “cura”, mas pode ser magnificamente controlada, a dor com forte componente central pode tornar-se:

  • mais leve

  • mais espaçada

  • menos limitante

  • mais previsível

  • mais tolerável

Com uma boa intervenção multidimensional, muitos pacientes conseguem reduzir a dor em 40–70%, melhorar função, voltar a treinar, dormir melhor e recuperar a vida.

Este é o objetivo.


4. O que pode fazer para reduzir a sensibilidade do sistema nervoso? 

Com base na evidência (incluindo trabalhos recentes sobre neuroplasticidade e educação para a dor publicados na PAIN), estas são as estratégias mais eficazes:


✔️ 4.1 Movimento gradual e frequente

Mover pequenas quantidades várias vezes ao dia é muito mais eficaz do que “um grande treino” ocasional.

O movimento ensina o sistema nervoso a baixar a interpretação de ameaça.


✔️ 4.2 Sono de qualidade

Dormir pouco aumenta a sensibilidade à dor entre 20% e 40% em algumas populações estudadas.

Higiene do sono → dor mais baixa.


✔️ 4.3 Gerir o stress (não eliminá-lo)

Respiração diafragmática, exposições progressivas ao movimento que causa receio, caminhadas ao ar livre — tudo isto reduz a excitabilidade do sistema.


✔️ 4.4 Entender a dor

Educação para a dor reduz medo, catastrofização e comportamentos de catastrofização e hipervigilância do movimento e postura.

E isso tem impacto direto na intensidade da dor.


✔️ 4.5 Fortalecimento progressivo

O exercício cria adaptações no corpo e no sistema nervoso.

Mais força → maior capacidade → menor ameaça percebida → dor mais baixa.


✔️ 4.6 Regularidade > intensidade

A chave na dor crónica não é fazer “muito”.
É fazer consistentemente.

Pequenos progressos acumulados são neuroplasticidade pura.


5. Conclusão

A dor crónica não significa “os tecidos estão sempre em mau estado”.
Significa que o sistema nervoso aprendeu a proteger demasiado.

E essa aprendizagem pode ser modificada.

Não com soluções milagrosas, nem com tratamentos passivos isolados, mas com um processo estruturado, progressivo e informado pela ciência.
A boa notícia? O corpo é extraordinariamente adaptável — e o sistema nervoso ainda mais.

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